Cinema: O Apartamento

O conflito ético exposto aqui é vertiginoso, doloroso, asfixiante. Que explode, principalmente, nos últimos trinta minutos de projeção. O diretor iraniano Asghar Farhadi, que cultiva o hábito de abordar temas concernentes à desarmonia doméstica e à sociedade iraniana (A Separação/O Passado), entrega um trabalho perturbador. O casal de classe média Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) é obrigado a deixar o prédio onde residem, ameaçado de ruir, com vazamentos de gás e rachaduras ameaçadoras nas paredes. Provisoriamente, por indicação de um amigo, eles se instalam em um apartamento vago. O local servia de lar e ponto de encontro de uma prostituta, que parece ter saído às pressas e deixado alguns pertences pessoais amontoados em um dos quartos.

Ambientada em Teerã, a trama esquenta de vez após a ocorrência de um episódio violento envolvendo Rana. Por descuido, enquanto tomava banho, ela é atacada por um estranho, possivelmente cliente da ex-inquilina mal afamada. Por meio de uma elipse, a sequência da agressão é omitida. Ela teria sido violada? A esposa afirma ter dificuldades em se lembrar dos detalhes. A natureza da violência é tratada com zelo, sem espalhafato, mas tudo indica que a mulher foi estuprada - a palavra estupro ou violação, por sinal, não é mencionada uma única vez ao longo do enredo. Curiosamente, o invasor deixou uma série de pistas, como um telefone celular, dinheiro, um conjunto de chaves, que abrem uma caminhonete abandonada nas proximidades, e um rastro de pegadas sangrentas. Como a polícia não foi acionada, para se evitar outro tipo de humilhação em uma sociedade machista, durante um tempo nada desses vestígios irá acrescentar alguma coisa.    

A partir desse acontecimento brutal, ambos passam a reagir de maneiras diferentes, o que instaura pressão sobre o seu relacionamento. Ao regressar do hospital, Rana fica na defensiva, traumatizada e cheia de fobias. Ela é uma maçaroca de nervos e contradições, além de fazer exigências irracionais. Homem versado na arte e cultura, o professor de literatura desconstrói sua postura gentil e equilibrada, devorado pelo desejo de se vingar de alguém que não conhece. Visivelmente ele teve seu orgulho viril ferido e a ameaça de vexame público o perturba mais do que a selvageria sofrida pela sua companheira. Está acesa a centelha do fogo que consumirá a união conjugal, simultaneamente à erosão da fortaleza moral de Emad.        

Para todos os efeitos, trata-se de um filme de desforra e retaliação, que vai além das palavras e intenções. O quadro ainda ganha outro escopo e sentido pelo fato de eles atuarem em uma companhia de teatro amador, que atualmente encena o clássico A Morte de Um Caixeiro Viajante. Como o show não pode parar, Farhardi aproxima as circunstâncias complexas da vida real do casal com as cenas da peça de Arthur Miller. No palco, um angustiado Willy Loman (Emad) se questiona porque não consegue assegurar uma condição financeira estável à sua família – embora adorado, ele espelha a figura do sujeito fracassado. Fora do ambiente teatral, Emad se digladia por não ter podido proteger sua mulher da abjeta agressão. Ou seja, ele falhou em cumprir uma imposição moral da sociedade. A correlação entre ficção e realidade se cristaliza em outras duas situações, quando as esposas imploram a seus maridos para não irem trabalhar.

Com direção crua e austera, o cineasta articula com habilidade o ritmo, a tensão e as informações intencionalmente rarefeitas. De forma gradativa consolida a sensação de impotência, a atmosfera de paranóia e o raciocínio de que ninguém conhece inteiramente a pessoa que ama. Os silêncios se multiplicam e o que não é dito soa desconfortável, incômodo. Preciso e inteligente, o roteiro obteve prêmio no último Festival de Cannes – o ator Shahab Hosseini também foi laureado no mesmo evento cinematográfico. O clímax é desesperador, com a introdução de um personagem fundamental. Inicialmente sua aparência anódina desperta indiferença, até certa ojeriza, mas em breves minutos ele consegue comover o espectador. Já Emad, tragado pelo instinto de perdão e o anseio de vingança, está transfigurado. A dúvida encaminhará o relacionamento ainda mais para a borda da destruição.  

O longa não se restringe apenas a um estudo sobre o indivíduo assombrado pelos seus fantasmas interiores e as fissuras inexoráveis que corroem o casamento, como a metáfora do edifício em degradação escancara. Abre-se também para fazer uma autópsia da sociedade iraniana, ensimesmada em seus rígidos códigos de honra e a perpetuação da desigualdade de gêneros. Se no início o protagonista é retratado como um educador progressista, aos poucos ele submerge em tabus e preconceitos por temer uma mancha impagável em sua dignidade. Por isso age obsessivamente em sua cruzada vingativa, chegando a desdenhar do trauma de Rana. Em entrevista, o diretor comentou que o comportamento de Emad não é irracional, mas premeditado. E que a brutalidade em curso pelo mundo afora tem justificativa ideológica. A obra, nesse sentido, explicitaria o mal estar contemporâneo.

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )  

(Foto Divulgação)

 

Avaliação: Ótimo

 

O Apartamento

Título Original: The Salesman (Irã / França, 2016)

Gênero: Drama, 125 min.

Diretor: Asghar Farhadi

Elenco: Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti, Babak Karimi, Farid Sajjadi e outros

Estreou: 05/01/2017

 

Veja trailer do filme:

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