EDITOR: Edgar Olimpio de Souza (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

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Teatro: Race

Incômodo, perturbador e cortante, o texto do dramaturgo norte americano David Mamet apresenta seres que golpeiam e sofrem contragolpes na mesma proporção. Não há alívio nas palavras vociferadas, nos embates cara a cara, nos choques interpessoais. Nada que surpreenda, porque o autor aporta em cena um assunto por demais espinhoso – o desconforto que comumente fustiga os brancos quando falam de negros ou se dirigem a eles. Ou seja, trata-se de uma peça que alavanca questões sobre a natureza universal da culpa e da vergonha. A adaptação brasileira, assinada por Gustavo Paso e encenada pela irrequieta companhia carioca Teatro Epigenia, potencializa a força da obra desembrulhando uma montagem febril, inteligente, cirúrgica.

Aqui, os diálogos são crus e reveladores do desespero, arrogância e do espírito dissimulado dos personagens. O público chega a se sentir inserido em um típico drama de tribunal. O cenário, no entanto, é um asséptico escritório de advocacia, aparentemente afortunado, pilotado por dois sócios useiros e vezeiros de jargões profissionais, o caucasiano Jack e o afrodescendente T.J., que se comportam menos como advogados e mais como homens de negócios. Há ainda uma assistente novata negra, a idealista Susan, recentemente admitida. A banca reluta em assumir um caso complicado, a defesa de Charles, um milionário branco acusado publicamente de estuprar uma jovem negra em um quarto de hotel, transgressão que ele refuta – segundo sua versão, ambos mantinham um relacionamento consensual e certamente aconteceu um mal entendido. 

A matéria, que envolve cor da pele, assédio e implicações variadas, é uma chaga aberta. O tratamento que Mamet concede ao tema avança além do território da racionalidade. A entrevista inicial de Jack e T.J. com seu potencial cliente é sacudida por frases hostis e insinuações que denotam a atitude um tanto amoral dos dois especialistas. Aborda-se o processo legal, que possivelmente não irá se apoiar na justiça, mas em um julgamento contaminado por preconceitos, suposições e condicionamentos históricos. Comentários sobre o papel indigno dos meios de comunicação também são entabulados ao longo da conversa. Sutilmente a política interna da casa ganha contornos. Ações escassamente transparentes ali desfechadas acabaram por gerar descobertas desagradáveis. Susan, por exemplo, que tem a aparência de uma mulher passiva e inexperiente, pode ter sido vítima de discriminação durante o processo de sua contratação.

Em meio ao ambiente formado de desconfianças, ataques e colisões, o trabalho precisa prosseguir. Um dos advogados propõe uma linha de atuação preliminarmente bem sacada. A suposta agredida relatou que seu vestido de lantejoulas vermelho foi rasgado durante o ato forçado. Porém, no relatório policial não há referência a esses enfeites que previsivelmente deveriam estar espalhados pelo chão.

O enredo ludibria o espectador, preocupado em saber se, de fato, o crime ocorreu e qual será a sentença do juiz. A inocência ou culpa do milionário, todavia, pouco interessa. A suposta barbaridade serve de pretexto para deflagrar outras reflexões e perspectivas: branco x negro, homem x mulher, patrão x funcionário, moralidade x amoralidade. Efetivamente, não se trata de um estudo restrito ao racismo e suas consequências. Retórico, o texto examina as artimanhas de dominação e da política sexual contemporânea, tece observações agudas sobre discriminação, mostra o lugar do indivíduo na sociedade e como a hipocrisia e o cinismo se infiltraram nas relações sociais.    

A precisa direção de Paso deixa o espetáculo fluir com naturalidade. Embalada por sequências curtas e exaltadas, a encenação organiza e delineia de forma desembaraçada o conflito no palco. O diretor lida com uma série de conteúdos interessantes e controversos sem recorrer a qualquer concessão e artifícios descartáveis. Obviamente porque confia na dramaturgia instigante, no sarcasmo do ensaísta e na força do elenco, que transpira a urgência necessária e busca infundir humanidade às criaturas. O concerto é afinado e harmonioso, sintonizado com a proposta de uma encenação austera. Criada pelo diretor e Luciana Falcon, a cenografia ajuda a iluminar a atmosfera enervante que adensa a montagem – a plateia se divide em duas partes e o espectador vira uma espécie de jurado involuntário.      

Gustavo Falcão encarna Jack, que se esforça em ser a pessoa mais fria e equilibrada da sala. Mais contido que o parceiro, está convencido de que paira acima das armadilhas raciais por entender o problema, mesmo se contradizendo em muitos instantes ao dizer e fazer coisas belicosas, de feição racista e sexista. O desempenho do ator é contundente e a forma acelerada como se expressa verbalmente indica uma tentativa de opressão pela linguagem. Em uma passagem, afirma que todas as pessoas são estúpidas e que os negros não estariam isentos dessa realidade.

Na pele do defensor negro, Leandro Vieira tem forte presença cênica. Sua atuação é cheia de fúria e evidencia a soberba de T.J., um sujeito que caminha sobre campo minado e não oferece conforto algum ao réu. Primeiro a detectar o teor explosivo do delito, ele acredita compreender a essência humana e o sistema de justiça, a ponto de vislumbrar a conduta dos jurados negros e brancos no eventual julgamento.

Convincente e segura, Heloísa Jorge dá vida à Susan, a assistente enigmática, de atitudes ambíguas e motivações vagas, que se aproveita das circunstâncias de sua raça, sexo e posição subalterna no gabinete. Por longos minutos ela permanece em silêncio, só espreitando os colegas, mas aos poucos sua lealdade é posta em cheque e sua presença se torna crucial à história. Sem recorrer ao estereótipo, Clovis Gonçalves empresta credibilidade ao homem acuado, em dúvida se deve se sacrificar ou buscar a redenção. Com o desenrolar dos acontecimentos, episódios vergonhosos do passado de Charles emergem, como uma mensagem escrita em um velho cartão postal endereçado a um amigo. Sua performance é firme, eficiente e franca.

Mamet concebeu um trabalho tenso e envolvente, movimentando figuras que funcionam como veículos para externar ideias e pontos de vista. Ele costuma enxergar o mundo como uma luta territorial pela subjugação, uma guerra sem tréguas pelo poder. Em Olleana, encenada recentemente pelo Teatro Epigenia, o eixo central gravitava em torno de uma persuasiva batalha entre uma geração que tenta preservar o controle e o mando e jovens ascendentes que procuram cavar seu lugar. Não há vencedores nem perdedores nessa arena. A dúvida sobre quem, afinal, tem razão jamais se dissipa. Sobra a convicção de que somos ensinados desde pequenos a camuflar e disfarçar nossos preconceitos étnicos e intolerâncias ao diferente.

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

(Foto Geraldo Júnior)

 

Avaliação: Ótimo

 

Race

Texto: David Mamet

Direção: Gustavo Paso

Elenco: Gustavo Falcão, Leandro Vieira, Clovis Gonçalves e Heloísa Jorge.

Estreou: 01/04/2017

Viga Espaço Cênico (Rua Capote Valente, 1.323, Pinheiros. Fone: 3801-1843). Segunda a quarta, 21h. Ingressos: R$ 30. Até 31 de maio.

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