Teatro: Jardim de Inverno

Frank (Fabrício Pietro) e April (Andréia Horta) formam um casal aparentemente ideal. Ela é bonita e recatada, ele tem elegância e espírito alegre. Moram em uma residência instalada em um bucólico subúrbio de classe média dos Estados Unidos, e são pais de duas crianças bacanas. Com a vizinhança, mantém relação construtiva. De certa forma, julgam-se especiais, refinados, vivem sorrindo ou fazendo de conta. Representam como ninguém o chamado sonho americano, aquela ideia de uma América heroica e bondosa, pós-Segunda Guerra Mundial.

No entanto, tudo soa tão falso quanto uma nota de três reais. Isso porque os Wheelers nutrem pouca afeição mútua e a relação deles é movida a diálogos amargos, que trazem à tona ressentimentos e recalques empilhados ao longo do matrimônio. A viçosa e sensível montagem de Marco Antônio Pâmio não livra a plateia do desconforto de acompanhar um relacionamento que está predestinado a desmoronar aos poucos.

Trata-se da versão teatral do romance Revolutionary Road (1961), do dramaturgo americano Richard Yates (1926-1992), que também ganhou adaptação cinematográfica (Foi Apenas Um Sonho, 2008), dirigida pelo cineasta Sam Mendes e protagonizada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. A trama principia com a encenação de uma peça amadora pelos moradores locais, A Floresta Petrificada, estrelada por April. Acontece que a noite é um fiasco e o marido e a mulher discutem asperamente. Primeira amostra de que eles aprenderam direitinho a ferir um ao outro. À medida que o enredo evolui, vai se tornando cada vez mais evidente que os Wheelers se revelam ineptos em conter a crescente desarmonia de seus cotidianos. No emprego, Frank arruma um caso amoroso com a secretária novata. Em casa, April dorme com o marido de sua melhor amiga. 

Aqueles que orbitam no entorno são figuras deprimentes, de valores mesquinhos. Os Campbells (Érica Montanheiro e Luciano Schwab), por exemplo, são xeretas, insípidos e boçais. A corretora de imóveis (Martha Meola) é inconveniente e boquirrota. Seu filho John (Iuri Saraiva), que passou um tempo internado no hospital psiquiátrico, é uma exceção em meio à mediocridade. Ele faz visitas eventuais aos Wheelers, quando costuma despejar verdades incômodas e tecer digressões sobre o vazio desesperador do subúrbio. Um espírito livre dentro de um sistema fechado. É interessante notar que todos, excluído o doente mental John, parecem se refestelar na arte da camuflagem: nem sempre o que dizem é o que realmente queriam dizer, tributo do autor ao teatro do dramaturgo inglês Harold Pinter, exímio em extrair poesia da batalha verbal.

A solução que April tira da cartola para sair dessa camisa de força é propor uma mudança por seis meses para a Europa e deixar essa velha existência para trás. Seu plano, na verdade, não passa de uma tentativa desesperada de reverter os papeis: em Paris ela trabalhará de secretária do governo, enquanto ele, que já residiu lá durante a guerra, irá cuidar dos filhos e terá tempo de sobra para estudar, viver e descobrir algo que o agrade, abandonando de vez o trabalho monótono. Mas uma pedra se encontra no caminho. Embora insatisfeito com o que faz, uma promoção está prestes a estourar na Knox e Frank não tem certeza se a viagem será a melhor escolha.

Para dar o tom e o sentido a esse enredo de acento trágico, ambientado nos anos 1950, Pâmio configurou uma mise-en-scène que mantém longitude prudente e cuidadosa do sentimentalismo ou do melodrama. O diretor nunca se sobrepõe ao texto, por acreditar na profundidade da obra e seu inventário de sentimentos. Engendra uma produção minimalista, talhada por marcações vivas e ágeis, imagens sugestivas e transições suaves entre a sala de estar dos Wheelers e a firma - a sequência inicial, com o público do condomínio assistindo o espetáculo privado, e as passagens que mostram a rotina estéril do serviço de Frank, exalam frescor e inspiração. Ao longo da ação, Pâmio multiplica os focos narrativos, num rodízio de testemunhos e pontos de vista sobre os acontecimentos. Há momentos em que os personagens secundários congelam os seus movimentos e, por segundos, observam a intimidade degradante do par central. Em chave poética, os então jovens e enamorados Frank e April (Julia Azzam e Lucas Amorim) escapam das memórias e invadem o espaço cênico, num choque entre o passado cheio de promessas e o presente saturado de autoenganos.

Não existe nota destoante no elenco reunido, que inocula veracidade no retrato dessas biografias frustradas, ao som de canções americanas da época e da trilha melancólica do compositor italiano Ludovico Einaudi. Com emoção refreada e sem arroubos descabidos, porque o conflito é interior, Andréia Horta expressa a dor, o fastio e a tristeza de uma mulher que descartou a ambição de ser atriz e hoje sente desprezo pelo marido, por si mesma e pela história que construíram. April intenciona triturar o casamento para poder respirar, ainda que não esteja aparelhada para suportar o minuto seguinte ao aniquilamento. Fabrício Pietro é enfático e viril na composição de Frank, um sujeito egoísta, machista e inseguro, que cultiva o péssimo hábito de ensaiar e editar suas palavras e seu afeto.

Contundente e febril, Iuri Saraiva rouba as atenções ao incorporar o insano e esquizofrênico John, criatura que não vive das aparências, vomita comentários cruéis e cortantes e é capaz de remover o véu da hipocrisia das pessoas com quem conversa. Martha Meola faz uma corretora terrivelmente ansiosa, histriônica e um tanto bisbilhoteira. Segura, graciosa e com sutis expressões corporais, Aline Jones valoriza o papel da secretária desejada. Escorados em performances solares e energéticas, Luciano Schwab e Erica Montanheiro interpretam os conformistas e resignados Campbell. Sem apelar para efeitos fáceis, Ricardo Ripa infiltra no homem de negócios um temperamento melífluo. Julia Azzam e Lucas Amorim circulam à vontade no palco, que acolheu iluminação delicada e meticulosa de Wagner Antônio e a equilibrada cenografia de Marisa Rebollo, matizada por objetos essenciais e de variadas funções.     

Neste drama, Yates trata de vidas, carreiras profissionais, perspectivas e percursos abortados. Suas criaturas descobrem estar trancafiadas em cargos, relacionamentos e estados de espírito que sequer haviam desejado para si. O mundo real está a léguas de distância do modelo de felicidade que projetaram. O desfecho é de tirar o fôlego, com a esposa desconsolada esgueirando-se pelo ambiente como alguém que renunciou a tudo. A incapacidade de April e Frank de se conectarem emocionalmente acaba por deflagrar eventos devastadores. O sonho americano virou um pesadelo. 

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )  

(Foto Edson Kumasaka)

 

Avaliação: Ótimo

 

Jardim de Inverno

Texto: Richard Yates

Direção: Marco Antônio Pâmio

Elenco: Andréia Horta, Fabrício Pietro, Erica Montanheiro, Iuri Saraiva, Aline Jones, Ricardo Ripa, Martha Meola, Luciano Schwab, Julia Azzam e Lucas Amorim.

Estreou: 11/10/2019

Teatro Raul Cortez (Rua Doutor Plínio Barreto, 285, Bela Vista. Fone: 3254-1630) Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 20h. Ingresso: R$ 50,00. Em cartaz até o dia 17 de novembro.

 

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