EDITOR: Edgar Olimpio de Souza (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

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Cinema: Kiki - Os Segredos do Desejo

Todos aqui cultivam estranhos fetiches sexuais. Uma mulher sente tesão ao ver alguém chorar de tristeza. Outra atinge o orgasmo em situações de pleno perigo. Um casal transa quando um deles não está acordado. Refilmagem de uma comédia australiana, A Pequena Morte, o longa desfila um catálogo de fantasias e taras associadas ao ato sexual. No enredo, a monotonia das relações amorosas, as inseguranças pessoais, os desejos recalcados e a premência de emoções funcionam como alavanca para a satisfação de prazeres da carne pouco convencionais ou que tangenciam o que é considerado normal. 

Com assinatura do cineasta espanhol Paco León, o filme lembra os primeiros trabalhos do conterrâneo Pedro Almodovar, por conta de seu desembaraço, espírito transgressivo, criaturas singulares e humor inquieto. Os primeiros minutos fornecem imagens memoráveis, com homens e mulheres em ação na cama transformando-se em animais ou fundindo-se com eles. É sob essa simbologia que as cinco histórias independentes transcorrem em uma Madri sexy e colorida, embalada por tipos que gostam e sofrem de suas obsessões sexuais. Uma curiosidade: boa parte dos personagens é identificada pelos nomes reais dos atores.

Na história de abertura, Natalia (Natalia Molina) confessa ao companheiro Álex (Álex Garcia) que recentemente experimentou orgasmo em uma loja de conveniência de um posto de gasolina, quando um ladrão pressionou uma faca em seu pescoço. Na tela surge a expressão harpaxofilia, que significa excitação sexual motivada por uma circunstância de violência. O mote vai render cenas divertidas com o parceiro tentando agradá-la simulando casos de roubo. A trama seguinte tem como protagonista um casal cuja vida sexual já teve dias melhores. Enquanto Ana (Ana Katz) e Paco (Paco León) tentam reaquecer a relação, inclusive com idas a um terapeuta sexual, eles recebem a visita de Belen (Belen Cuesta), a atraente amiga lésbica do rapaz. A moça irá despertar desejos até então ignorados ou enrustidos. 

Em outra narrativa, Antonio (Luis Callejo) e Maria Candelaria (Candela Peña) pouco se animam na intimidade. O quadro muda no instante em que ela descobre que se excita vendo pessoas chorando – o nome disso é dacrifilia. A partir desse achado, a mulher procura o tempo inteiro provocar tristeza no marido, nem que seja providenciando uma doença inexistente.

No quarto relato, o cirurgião plástico Jose Luis (Luis Bermejo) é casado com Paloma (Mary Paz Sayago), que está presa a uma cadeira de rodas e o trata com certo desdém. Por acaso, após a esposa beber acidentalmente um chá com sedativos, ele monta uma estratégia para fazerem sexo intenso. Deve-se ressalvar que tal preferência sexual bizarra não é vista na película como uma atitude condenável, porque é possível vislumbrar afeto entre eles. Testemunha, uma empregada filipina disposta a turbinar os seios, mas sem dinheiro para pagar a cirurgia, aproveita para estabelecer uma chantagem sutil sobre o patrão. No último episódio, Sandra (Alexandra Jimenez), funcionária em um centro de atendimento a pessoas com deficiência auditiva, se assanha cada vez que toca em camisas de sedas. Por meio de uma linha de sexo por telefone, ela ajuda um cliente surdo-mudo a satisfazer suas fantasias sexuais. 

Claro que as parafilias expostas geram diversas passagens cômicas. Em um clube sexual, Paco e Ana passam por experiências eróticas diferentes, sem que um se disponha a falar ao outro o que vivenciou. Em outro momento, três personagens trocam flertes valendo-se da linguagem gestual que se desenha a partir da degustação de frutas. Um casal fala de sexo oral no consultório, com críticas ao desempenho do parceiro e detalhes vulgares.

A obra não se pretende profunda. No entanto, deixa entrever uma áspera crítica sobre o significado da normalidade nos tempos atuais, marcados pela urgência da busca de alternativas para se evitar a solidão. A direção instaura dinamismo ao roteiro e não perde o ritmo ao acompanhar uma série de personagens, situações e ambientes. Diálogos saborosos e acontecimentos francamente divertidos, sem apelo ao estereótipo fácil, mantém o interesse do espectador. A forma como o filme aborda os desejos e as necessidades, tudo aquilo que não se costuma revelar e de repente aprendemos a consentir, é envolvente. Prazeres singulares como dacrifilia, hifefilia, somnofilia, poligamia e harpaxofilia passam ao largo do julgamento moral. Em hipótese alguma são examinados como perversões ou depravações. São apenas vícios privados, observados pelo registro do humor leve e pitoresco.

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

(Foto Divulgação)

 

Avaliação: Bom

 

Kiki – Os Segredos do Desejo

Título Original: Kiki, Love to Love (Espanha, 2016)

Gênero: Comédia, 102 min

Direção: Paco León

Elenco: Paco León, Ana Katz, Belen Cuesta, Candela Peña e outros

Estreou: 15/06/2017

 

Veja trailer do filme:

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