EDITOR: Edgar Olimpio de Souza (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

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Cinema: Um Instante de Amor

Gabrielle (Marion Cottilard) é uma jovem mulher cujo comportamento liberal afronta o provincianismo predominante em um vilarejo rural francês nos anos 1950. Como se fosse uma Madame Bovary em pleno século vinte, sua sexualidade à flor da pele a transtorna e incomoda os demais. Em uma das primeiras cenas, ela se banha num rio, abrasadora, com sua saia erguida e sem calcinha. O filme da atriz e cineasta francesa Nicole Garcia começa com essa tensão sexual no ar. O erotismo transbordante que acomete a moça se torna uma pedra no sapato de sua família pequeno-burguesa e gera falatório na região. Até porque ela, animalizada pela vida sem maiores emoções no campo, assedia um professor de escola casado, a quem escreve cartas apaixonadas e chega a se excitar lendo os seus livros.

Preocupada com a sanidade mental da filha, e envergonhada após outro escândalo durante uma festa da comunidade, os pais tomam uma decisão drástica: ou ela aceita um casamento de conveniência com um estranho ou será internada num sanatório. “Ela precisa de um homem em sua vida”, acredita a mãe. Ele é o pedreiro espanhol José (Alex Brendemuhl), que lutou contra Franco na Guerra Civil Espanhola e agora trabalha na propriedade da família. Como o futuro marido não a agrada, Gabrielle concede ao matrimônio imposto, mas sob a condição de que entre eles não existirá sexo. Em contrapartida, permitirá que ele frequente bordéis para satisfazer-se sexualmente.  

Baseado no romance da escritora italiana Milena Agus (Mal de Pierres), o longa desfia o drama de uma pessoa reprimida em um casamento sem amor, uma tragédia afetiva tonificada pela atmosfera conservadora e antiquada da época. Em função da natureza dessa ligação artificial, a relação evolui contaminada pela frieza, apesar dos esforços de José que, alimentado por sentimentos amorosos, chega a se anular e se aviltar. O arranjo nupcial irá se esfarelar de vez no momento em que Gabrielle se interna em uma estação de águas nos Alpes suíços para tratar de cálculos renais que a impedem de engravidar. Neste aprazível recanto, ela irá conhecer Andre Sauvage (Louis Garrel), tenente do exército francês na Guerra da Indochina que se encontra gravemente combalido. Consumida pelos impulsos do coração e da carne – há uma bela cena de sexo entre os dois -, verá suas esperanças definharem em poucos dias.

O espectador está diante da crônica de um romance louco – no lugar do fascínio e ardor por um homem, na verdade Gabrielle se vê atraída por um ideal de afeto. Não por acaso o filme abre com a protagonista, num gesto súbito, desembarcando de um carro onde estava ao lado do marido para se dirigir a um apartamento, em busca de uma paixão perdida em tempos passados. A partir desse episódio, um longo flashback tem início. Hoje, ela é mãe de um menino, que cresceu como pianista promissor, e tenta em vão se desvencilhar da solidão. Trata-se de uma trama na aparência simples, que se desenrola em ritmo cadenciado, equilibrando-se entre o registro histérico e o melodrama, ao som da sinfonia Barcarola, de Tchaikovsky. Curiosamente, aqui as figuras masculinas não são vulgarizadas nem exibidas como vilões. São apresentados como tipos sensíveis e abnegados (José) ou diletantes (Andre). Nas entrelinhas vislumbra-se que o que estamos vendo pode não corresponder à realidade. O que se confirma com uma revelação surpreendente no desfecho.

Marion Cottilard é um dínamo na tela e potencializa a obra com um desempenho crivado de nuances, concedendo intensidade a uma criatura não necessariamente simpática ao público. Mais do que o seu temperamento indócil e selvagem, a personagem central é alguém que não prima pelo realismo e pragmatismo em suas ações amorosas. O enredo evita fazer julgamentos sobre os seus desejos e sonhos, pulsões francamente em desarmonia com os valores e costumes então vigentes. Por esse prisma, é possível se comover pela história de Gabrielle que, atiçada a vivenciar fortes emoções, se revela incapaz de enxergar o amor real que já tem ao seu lado.

(Edgar Olimpio de Souza – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

(Foto Divulgação)

 

Avaliação: Bom

 

Um Instante de Amor

Título Original: Mal de Pierres (França, 2016)

Gênero: Drama, 120 min

Direção: Nicole Garcia

Elenco: Marion Cotillard, Alex Brendemühl, Louis Garrel e outros

Estreou: 29/06/2017

 

Veja trailer do filme:

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